sábado, 28 de julho de 2012

04/08 - Tom Zé


Tom Zé lança novo disco de canções inéditas, Tropicália Lixo Lógico, em versões em cd e vinil, que será celebrado com show de lançamento no dia 4 de agosto, no Circo Voador. Desde “Estudando o Samba” (1976), Tom Zé produz discos conceituais baseados em uma teoria própria que o faz criar músicas com o intuito de defender uma tese. Em Tropicália Lixo Lógico, ele revisita os anos 60 de olho no futuro da canção, com a participação de jovens nomes da música popular: Emicida, Mallu Magalhães, Rodrigo Amarante e Pélico, além do estreante Washington.

Com sua habitual irreverência, Tom Zé reverencia os símbolos tropicalistas em um álbum que é, ao mesmo tempo, conceitual e leve. O mergulho nas origens da Tropicália trouxe a base teórica para o artista criar canções que carregam o espírito tropicalista com a pegada direta que marcou aquele movimento. Apoiado pela banda formada por Lauro Léllis, Jarbas Mariz, Cristina Carneiro, Felipe Alves e Renato Léllis, e com a produção musical cuidada por Daniel Maia, que também acrescentou seu talento de músico às faixas, Tom Zé imprimiu ao disco uma atmosfera fresca, intercalando o que são, nas palavras dele, “canções de tese festeira, e canções de festa sem tese”.

A tese

Olhando para o senso comum que atribui o nascimento da Tropicália a fatores externos como o rock internacional e a Oswald de Andrade, Tom Zé se pergunta: como teria acontecido a convergência de idéias que resultou no movimento? Elaborando a questão, o artista propõe que a origem da Tropicália reside em um momento anterior, que ele denominou de “creche tropical”. Nele os bebês baianos Gil, Caetano, Gal, Tom Zé e colegas tropicalistas provêm da cultura moçárabe, que entregava aos bebês um conhecimento baseado na oralidade. Indo à escola, com cerca de sete anos, essas crianças têm acesso a  outro pensamento formal baseado na razão, o aristotélico.

Até então, os “analfatóteles” não organizavam as idéias de forma cartesiana. Na escola, alfabetizados por essa tradição comum a todos os ocidentais, o aprendizado moçárabe era atirado na lata de lixo do cérebro, o hipotálamo. Lá ficava essa memória do conhecimento da infância, que descansou durante anos, até o momento em que o choque do rock internacional, Oswald, Rita, Agripino, Zé Celso & cia dispararam o gatilho, fazendo com que o lixo lógico saísse do hipotálamo e fosse, finalmente, para o espaço nobre do córtex cerebral. A partir daí, as idéias que repousavam na inconsciência vieram à tona e resultaram em um movimento que trazia a soma das duas culturas: a moçárabe e a formal artistotélica.

Esse grupo levou, segundo Tom Zé, a cultura brasileira da Idade Média à Segunda Revolução Industrial, agindo como heróis civilizadores da juventude brasileira. É essa aproximação sonora dos jovens artistas da Tropicália que Tom Zé quis destacar, ao buscar a origem do movimento em Tropicália Lixo Lógico.

O disco

Ao estudar as razões que possibilitaram a existência da Tropicália, Tom Zé apresenta dezesseis canções que buscam o apelo popular que o movimento sempre se esforçou para manter, refletindo a variedade musical que o artista gosta de experimentar. A partir do, digamos, rap Apocalipsom A (O fim no palco do começo), escrito de forma nordestina e cantado com o acento urbano de Emicida, Tom Zé explica o princípio de sua tese: “Diabo e Deus numa sala / Firmou-se acordo solene / De unir em casamento / A fé e o conhecimento / Casou-se com muita gala / O saber de Aristóteles / Com a cultura do mouro / Para ter num só filhote / O duplicado tesouro”.

Mallu Magalhães empresta sua voz a duas faixas: a pulsante Tropicalea Jacta Est, título inspirado na expressão em latim “a sorte está lançada”, e O Motoboi e Maria Clara, música delicada sobre (e para) os motoqueiros que têm uma vida tão violenta. A observação do cotidiano está presente na cômica Aviso aos passageiros e em NYC Subway Poetry Department, cuja letra, em inglês, Tom Zé escreveu em parceria com seu professor da língua, e que conta ainda com a bela voz de Rodrigo Amarante. A canção A Terra, meus filhos é uma séria digressão sobre a natureza e suas crias, amaciada por um ritmo que lembra uma boa Bossa Nova.

Jucaju e De-de-dei Xa-xa-xá (ao lado de Pélico) revelam um aspecto do disco que remete a  brincadeiras sonoras, leveza, e ao espírito livre de fazer canção. Em Tropicália Lixo Lógico (com a participação do pernambucano Washington), a tese é destilada na letra, valorizando a qualidade musical. Enquanto Debaixo da Marquise do Banco Central faz uma observação cruel sobre um amor dificultado pelo desequilíbrio social, Navegador de canções, escrita em 1972 e ainda inédita, traz um Tom Zé trovador romântico. O romance também é base para Amarração do Amor, que fala da feitiçaria para capturar o amado, ao passo que Não tenha ódio no verão sugere que "O ódio pega / Como planta que se rega, / Mas no peito que navega / A pessoa fica cega."

Com produção executiva de Milena Machado, e patrocínio do programa Natura Musical através da Lei de Incentivo à Cultura do MinC, o álbum tem projeto gráfico assinado por Richard Vignais (com obras de arte de Rodrigo Villas Bôas), que relembra a importância dos pedaços na formação de um todo, reprisando a idéia de que o que constitui uma obra são as suas partes, desde a formação, durante o processo, para chegar à obra final.

CIRCO VOADOR
22 HORAS
INGRESSOS:
Inteira R$80
Meia/Promo R$40

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